quarta-feira, 31 de agosto de 2011

No tempo da minha infância











Ismael Gaião





No tempo da minha infância

Nossa vida era normal

Nunca me foi proibido

Comer muito açúcar ou sal

Hoje tudo é diferente

Sempre alguém ensina a gente

Que comer tudo faz mal






Bebi leite ao natural

Da minha vaca Quitéria

E nunca fiquei de cama

Com uma doença séria

As crianças de hoje em dia

Não bebem como eu bebia

Pra não pegar bactéria








A barriga da miséria

Tirei com tranquilidade

Do pão com manteiga e queijo

Hoje só resta a saudade

A vida ficou sem graça

Não se pode comer massa

Por causa da obesidade








Eu comi ovo à vontade

Sem ter contra indicação

Pois o tal colesterol

Pra mim nunca foi vilão

Hoje a vida é uma loucura

Dizem que qualquer gordura

Nos mata do coração








Com a modernização

Quase tudo é proibido

Pois sempre tem uma Lei

Que nos deixa reprimido

Fazendo tudo que eu fiz

Hoje me sinto feliz

Só por ter sobrevivido








Eu nunca fui impedido

De poder me divertir

E nas casas dos amigos

Eu entrava sem pedir

Não se temia a galera

E naquele tempo era

Proibido proibir








Vi o meu pai dirigir

Numa total confiança

Sem apoio, sem air-bag

Sem cinto de segurança

E eu no banco de trás

Solto, igualzinho aos demais

Fazia a maior festança








No meu tempo de criança

Por ter sido reprovado

Ninguém ia ao psicólogo

Nem se ficava frustrado

Quando isso acontecia

A gente só repetia

Até que fosse aprovado








Não tinha superdotado

Nem a tal dislexia

E a hiperatividade

É coisa que não se via

Falta de concentração

Se curava com carão

E disso ninguém morria








Nesse tempo se bebia

Água vinda da torneira

De uma fonte natural

Ou até de uma mangueira

E essa água engarrafada

Que diz-se esterilizada

Nunca entrou na nossa feira








Para a gente era besteira

Ter perna ou braço engessado

Ter alguns dentes partidos

Ou um joelho arranhado

Papai guardava veneno

Em um armário pequeno

Sem chave e sem cadeado








Nunca fui envenenado

Com as tintas dos brinquedos

Remédios e detergentes

Se guardavam, sem segredos

E descalço, na areia

Eu joguei bola de meia

Rasgando as pontas dos dedos








Aboli todos os medos

Apostando umas carreiras

Em carros de rolimã

Sem usar cotoveleiras

Pra correr de bicicleta

Nunca usei, feito um atleta,

Capacete e joelheiras








Entre outras brincadeiras

Brinquei de Carrinho de Mão

Estátua, Jogo da Velha

Bola de Gude e Pião

De mocinhos e Cawboys

E até de super-heróis

Que vi na televisão








Eu cantei Cai, Cai Balão,

Palma é palma, Pé é pé

Gata Pintada, Esta Rua

Pai Francisco e De Marré

Também cantei Tororó

Brinquei de Escravos de Jó

E o Sapo não lava o pé








Com anzol e jereré

Muitas vezes fui pescar

E só saía do rio

Pra ir pra casa jantar

Peixe nenhum eu pagava

Mas os banhos que eu tomava

Dão prazer em recordar








Tomava banho de mar

Na estação do verão

Quando papai nos levava

Em cima de um caminhão

Não voltava bronzeado

Mas com o corpo queimado

Parecendo um camarão








Sem ter tanta evolução

O Playstation não havia

E nenhum jogo de vídeo

Naquele tempo existia

Não tinha vídeo cassete

Muito menos internet

Como se tem hoje em dia








O meu cachorro comia

O resto do nosso almoço

Não existia ração

Nem brinquedo feito osso

E para as pulgas matar

Nunca vi ninguém botar

Um colar no seu pescoço








E ele achava um colosso

Tomar banho de mangueira

Ou numa água bem fria

Debaixo duma torneira

E a gente fazia farra

Usando sabão em barra

Pra tirar sua sujeira








Fui feliz a vida inteira

Sem usar um celular

De manhã ia pra aula

Mas voltava pra almoçar

Mamãe não se preocupava

Pois sabia que eu chegava

Sem precisar avisar








Comecei a trabalhar

Com oito anos de idade

Pois o meu pai me mostrava

Que pra ter dignidade

O trabalho era importante

Pra não me ver adiante

Ir pra marginalidade








Mas hoje a sociedade

Essa visão não alcança

E proíbe qualquer pai

Dar trabalho a uma criança

Prefere ver nossos filhos

Vivendo fora dos trilhos

Num mundo sem esperança








A vida era bem mais mansa,

Com um pouco de insensatez.

Eu me lembro com detalhes

De tudo que a gente fez,

Por isso tenho saudade

E hoje sinto vontade

De ser criança outra vez...

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