quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Morte eterna

MARCOS MARINHO

Ninguém matou Raymundo Asfóra. Ele decidiu seu caminho, a ida sem adeus. Tudo que se diga em contrário é desinformação, pura e simplesmente.

Ou maldade!

O único problema que Asfóra alcançava nessa decisão era divino, não terrestre. Católico, credor da existência de uma vida eterna, artífice das parábolas na hora de expressar o que queria, confiou-me dias antes da morte pequena frase rabiscada de próprio punho que, interpretada ao pé da letra, diz tudo que alguém possa querer saber sobre o seu fim.

Publiquei a frase, acho que no jornal A União, quando efervescia o caso e quando pululavam na mídia acusações caluniosas imputando a autoria da sua morte a vários dos seus mais leais amigos, dentre estes eu, Ronaldo Cunha Lima, o Cônsul do Líbano no Nordeste e compadre de Asfóra, Joseph Noujaim Habib, Orlando Almeida, dentre outros.

E por essas e outras prometi a mim mesmo não tocar mais nesse assunto. A Paraíba sabe dos laços fortes que me uniam a Asfóra, das verdades que conheço, do sofrimento que o desenlace produziu no seio familiar e amigo do pranteado.

Mas é prudente mexer no caso, quando o caso é reaberto pela Justiça e volta a ser manchete. Prudente e necessário. Inclusive porque muita gente que hoje acompanha o noticiário sequer conheceu Raymundo Asfóra. E a vida desse grande homem foi singular, tanto assim que ele não permitiu-se dar à morte o direito de encontrá-lo. Foi a ela, ciente de que a vida não mais lhe preenchia o íntimo.

Muito falei e escrevi à época da sua partida, contrariando principalmente uma balzaquiana irmã dele que mora em Recife - Mirian -, responsável por todas as calúnias e por esta palhaçada que traz outra vez à ribalta do sofrimento a viúva de Asfóra e seu mais fiel ‘cão-de-guarda’, o morto-vivo fotógrafo Marcelo Marcos.

O relatório apresentado pela Polícia Federal, que entrou no caso a pedido do governador Tarcisio de Miranda Burity para exatamente apurar com isenção o infausto acontecimento, é uma peça conclusiva e sem defeitos. Mostra até que por fração de segundos após o disparo Asfóra manteve-se consciente.

Quer dizer, preparado esteve ele para suportar o impacto do tiro mesmo porque, professor de Direito Criminal, não lhe comportava inocência no gesto e nas conseqüências do que praticaria.

Pés trançados com os pés da cadeira, cabeça deitada sobre a mesa… Todo um figurino perfeitamente seguro e ambientado para o desfecho. Nada a merecer dúvidas sobre a ação. Mas, eleito vice governador da Paraíba, nome de evidência no momento político, óbvio que dúvidas sobre a causa-mortis deveriam aparecer.

Disso não houve queixa. Ao contrário, é dever do Estado tudo apurar. Dessa obrigação Burity não arredou pé. E o resultado oficial, com todos os elementos probatórios necessários, veio a público pelas mãos do xerife maior da Policia Federal, o saudoso Romeu Tuma, que mais adiante virou Senador da República pelo Estado de São Paulo e continuou até sua morte sendo um dos mais respeitáveis nomes do Brasil nessa área policial-investigativa.

A morte de Asfóra não se deu por nenhum acaso. A teia de problemas enredando-o na esfera familiar era tamanha que ir-se por deliberação pessoal com certeza foi a melhor opção.

Não tenho o direito de expor, nem neste e nem em outro espaço, as confidências daqueles instantes finais de dores dilacerantes. Eu e ele, por quatro anos em Brasília, fomos sozinhos. Se em Campina a convivência em Manoel da Carne de Sol com Lindenberg Martins, Rodenbusch, Moacir Thiê e tantos outros que embalavam a sua solidão nas frias noites/madrugadas da Borborema, contribuindo para ajudá-lo a abraçar os amanheceres, era coletiva, no Planalto Central o meu ombro cansado pelo labor diário no gabinete do Anexo IV da Câmara Federal foi o único porto seguro para afogamento das suas alegrias, tristezas, mágoas e decepções.

Não acho justo, pois, esse massacre sobre Neta (Gilvanete Vidal de Negreiros Asfóra) e Marcelo. Essa invenção nascida sob a maldade da balzaquiana que acima me refiro, é coisa de louca. De quem não respeitou sequer os menores herdeiros que só não deixaram de ver o pai no caixão porque eu me insurgi e de forma atrevida levei-os com a mãe para a beira do ataúde lá no Palácio do Bispo, gesto do qual não me arrependo porque foi o justo naquele instante de desespero e orfandade.

Neta, Sheyner, Thanner, Kerma e Bergma estão vivos e sabem bem do que me reporto. Daquele mal, pelo menos, eu os livrei. Negar o beijo no pai na hora derradeira não tinha razão de ser. E assim agi como último ato da assessoria permanente que prestei ao amigo até aquele minuto, fazendo o que era certo!
Hoje ouvi pelo rádio um repórter dizer que a promotoria pública tem um fato novo para provar que Asfóra foi assassinado, mas que somente no dia do júri, em março, trará à tona.

Não me parece legal isso. Trata-se, evidentemente, de uma guerra de nervos. Um massacre adicional para atentar contra as noites insones dos acusados. Nem tanto por Neta, que tem apoio dos filhos e agora é por um deles defendida, mas por Marcelo, este sim o ser mais prejudicado nesse imbróglio, coisa de fazer cortar coração.

Asfóra matou-se! Marcelo, esse sim, foi assassinado. E a balzaquiana era quem deveria vir para o júri, pagar por esse crime.

Marcelo vive, mas está morto há quase três décadas na busca de provar-se inocente perante as leis do País.
Afora a beleza de ter gerado uma filha, nada mais construiu em bem próprio. Adoeceu e envelheceu. Quando anda, rumina saudades do amigo. Quando para, pensa-se um malfeitor. Quando canta, quebra os versos. Quando sonha, alquebra-se em pesadelos.

Isso será vida?

Vou voltar ao tema, logo logo.

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