terça-feira, 30 de outubro de 2012

Era Uma Vez


Era uma vez

(Laura Pereira)

 

“Era uma vez…” Assim começa todas as estórias. “…E foram felizes para sempre.”

                             Era uma vez traz muito de nossa infância, daquele cantinho meio escondido da nosssa memória onde recorremos sempre que, por algum motivo, decidimos lembrar o nosso passado.

                             É naquele cantinho, no intervalo entre o sonho e a realidade que as coisas acontecem. Eu era ainda bem pequena quando ouvia as estorinhas, elas vinham acompanhadas de princesas, dragões, príncipes, monstros e bruxas, elas me encantavam e depois que as escutava, eu mesma inventava as minhas estorinhas, imaginava outro final e incorporava a princesa… sim, nas minhas estórias eu sempre era a princesa, a bailarina, a heroína.

                                     Assim, sonhadora e curiosa, lia tudo que me caía nas mãos. Naquele tempo em Itaporanga não existiam livros infantis (salvo os da escola), a gente escutava as estórias de nossos pais e amigas e elas iam sendo passadas assim, de boca em boca.

                         Meu pai gostava de comprar os livretos de literatura de cordel, que traziam estórias interessantes e rimas engraçadas… quem nunca leu “A chegada de Lampião no inferno” ou “A Donzela Teodora” ? Eu lia todas.

                            Como naquele tempo não tínhamos muito o que ler ou se tinha custava muito caro, eu tinha o privilégio de ganhar muitos livrinhos de uma tia que morava em João pessoa, tia Cândida. Quando minha mãe voltava de viagem, no corujão, eu acordava cedinho e ia “cutucar” a bolsa dela pra ver se lá encontrava os meus gibis… qual não era a minha alegria quando minha mão tocava, no fundo da bolsa, aquele volume de gibis novinhos… eu ficava deliciada… mal clareava o dia e lá estava eu devorando página por página. Tinha gibi da Turma Mônica, Pato Donald, Luluzinha, tinha até gibi do Texas(esse eu não gostava muito não, mas lia assim mesmo).

                              E quando era tempo de Natal? Eu ganhava os almanaques da Disney e da Mônica, pra mim não existia  presente melhor. Me lembro que, depois que lia todos, ia no mercado trocar as minhas revistinhas na banca do saudoso Dimas, mas confesso que trocava com um pouco de pena, pois os gibis de Dimas eram muito velhos…

                                    Nessa época, eu tinha uma vizinha muito querida que morava de frente a minha casa. Certa vez, ela comprou uma coleção de livros infantis para seu filho e guardou os livros na estante. Esses livros ficaram expostos por muito tempo, sem que o garoto sequer tivesse a coragem de folheá-los. Eu, por minha vez, “paquerava” os livros sempre que ia até a casa dela e um dia, numa atitude corajosa, os pedi emprestado (senti tanta vergonha!) mas ela me atendeu prontamente e, um a um, li todos eles com muito prazer. Os livros eram grandes, capa dura vermelha e gravuras lindíssimas de fadas, gnomos, lindas princesas de cabelos compridos, sereias, castelos com bandeiras tremulantes, gigantes, polegarzinhas... que maravilha.

                            Naquele tempo nem imaginava que no futuro (que é hoje rsrs) poderia exsitir um aparelho onde pudéssemos assistir a todas aquelas estórias ou que pudéssemos colecionar filminhos e desenhos… como não pude assitir as estórias em DVD na infância, eu comprei toda a coleção e voltei a ser criança.

                             O tempo passou rápido e os gibis foram sendo, aos poucos, deixados de lado. Outras leituras surgiram e essas emociovam muito mais: as fotonovelas( Sétimo Céu) e os romances (Sabrina, Júlia, Bianca, Bárbara Cartland) eram estórias inesquecíveis, romances impossíveis, intrigas e deliciosas reviravoltas… eu sonhava acordada. Ainda hoje me lembro de muitas passagens dessas estórias de amor “eterno”.

                                O tempo passou um pouco mais,  compromissos mais sérios foram surgindo e eu fui sendo separada do mundo dos sonhos. A realidade é bem diferente do que se lê nessas histórias, às vezes o príncipe é  que vira sapo e as princesas nos assombram à noite. As bruxas escapam dos livros e tomam as formas mais diversas, elas enganam e traem… elas também estão mais bonitas, nos confundindo ainda mais. Mas, depois de tantas estórias, estamos preparados para lutar com a “temível” realidade.

                             As crianças de hoje não leem como as do passado, é muito fácil encontrar tudo pronto em DVD e os desenhos não são tão inocentes, os heróis estão mais humanos do que nunca, eles matam os adversários e brigam entre si, também estão mais preparados, pois se valem da tecnologia de ponta:  nanotecnologia e mutações elaboradas em laboratórios sofisticados… Ah… onde foram parar o brilho dos olhos da Minie? E a casinha da Mônica? As adolescentes não gostam de romance normal, elas adoram aqueles vampiros sensuais das séries americanas (e eles estão mais sedutores do que nunca). Alfred Hitchcock e o quase inocente Nosferato que o digam!

                              A onda dos mangás pegou até mesmo Maurício de Sousa e A Turma da Mônica adolescente, para mim, ficou sem graça. Foi-se o tempo do He-Man, Black Star, She-Ra, Cavalo de Fogo, A Turma, Ursinho Puf… Isso a gente só vê em flashback.

                                As músicas acompanharam a atitude dos jovens, muitos  deles  perderam a capacidade de sonhar “Eu fui matando os meus heróis aos poucos como se já não tivesse mais nenhuma lição pra aprender… Memórias, não são só memórias, são fantasmas que me sopram aos ouvidos coisas que eu… (PITTY), pois é, é isso que meus filhos escutam hoje nos CDs.

                                    Bem, eu nunca acreditei em Papai Noel, mas tinha lá meus sonhos, minhas princesas, meus gibis… às vezes lamento, mas entendo que as coisas mudam porque não podem ficar paradas, é uma lei natural, depois, muita coisa mudou para melhor. Se as crianças preferem assitir a Pokemons, Animes, Diários de um vampiro e tudo de novo que surge na TV, fazer o quê? Proibir? Até quando? A mídia está ficando cada vez mais perigosa, sinuosa, e o pior é que as crianças adoram e nós ficamos confusos, perdidos… o ideal seria “pastorar”, mas isso não funciona pra todo mundo, e eis o grande desafio da modernidade,  poder fugir da matrix “ …E eu sei que o eles vão fazer: reinstalar o sistema: pense, fale, compre, beba, leia, vote, não se esqueça… tenha, more, gaste e viva… (PITTY).

                                    Então, era uma vez uma criança que lia aventuras de principes e dragõe, num reino muito distante onde ainda axistiam livros … Essa talvez seja alguma estorinha do futuro, mas nem tudo está perdido, ainda podemos interferir. Era uma vez uma mocinha que lia romances cor-de-rosa e que de noite inventava as suas próprias estórias…

                                       Ah! Sabe aquela tia que mandava as revistinhas (já lidas por seus netos) de João Pessoa? Ela ainda está viva, só que velhinha. Ela talvez ainda se lembre do dia em que eu escrevi uma carta e agradeci todos os gibis que ela enviou para mim, agradeci a ela todas as leituras que fiz, todos os sonhos que sonhei e todas as estórias que inventei, pois foi com um gesto de certa senhora generosa para com uma menininha sohadora, que tudo começou.

Laura Pereira.

 

 

 

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