Alguns avanços no Brasil têm atropelado a logística.
Na economia, tecnologia, comunicação, legislação, política, enfim. As coisas vão acontecendo e quando a gente vê tem que lidar com aquilo, mas não tem capacidade, competência, estrutura...
Um dos fenômenos atuais no Brasil são os concursos. Depois um tempo meio parado, nos últimos anos os concursos têm se espalhado por todas as regiões e poderes do país e, além de um grande mercado de cursos e material didático e de uma nova atividade cada vez mais em voga – a de “concurseiro” – os certames têm sido marcados por muita incompetência por parte daqueles que os organizam.
Eu mesmo fui vítima de uma fundação lá das brenhas de São Paulo que não tinha capacidade para organizar uma prova prática da qual eu participei, fez uma lambança sem tamanho e eu tive que passar dois longos anos esperando que a Justiça me desse o direito de assumir um cargo que era meu de fato e de direito.
Eu mesmo fui vítima de uma fundação lá das brenhas de São Paulo que não tinha capacidade para organizar uma prova prática da qual eu participei, fez uma lambança sem tamanho e eu tive que passar dois longos anos esperando que a Justiça me desse o direito de assumir um cargo que era meu de fato e de direito.
Ultimamente, na Paraíba, todo concurso é a mesma ladainha: desorganização, pessoal despreparado, falhas na composição, impressão, distribuição e correção das provas, suspeitas de “arrumadinhos” e várias outras.
As últimas vítimas da péssima organização de um concurso na Paraíba foram os milhares de candidatos ao cargo de Assistente Administrativo na UEPB, além da própria instituição, que agora se vê diante de um grandioso impasse que poderá atrasar muito a contratação de servidores que hoje lhe fazem falta.
A Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, competente e respeitada em várias outras áreas, como a incubação de empresas de base tecnológica e o desenvolvimento de projetos de gestão e inovação científica, mostrou-se um retumbante fracasso em todas as etapas do certame, com ênfase em suas fases finais, desde a aplicação da prova até a divulgação do resultado final.
No dia de realização das provas foi testemunhado pelos candidatos e seus amigos e familiares (eu incluído) as mais vexatórias falhas, que, por si só, já dariam motivos sólidos para que o concurso fosse sumariamente cancelado e, no mínimo, a entidade organizadora pagasse pela contratação de outra que fosse efetivamente capaz de organiza-lo. Pessoas entrando com celulares até a sala de prova e depois jogando seus aparelhos pelas janelas, atraso de mais de duas horas na entrega das provas por problemas de distribuição, pessoas saindo com gabaritos e provas antes do horário estabelecido (essa, eu vi pessoalmente).
Realizada a prova, já com os candidatos ressabiados com o que testemunharam, além de todos os comentários do que houve em outros locais de provas, as fases seguintes foram ainda mais trágicas. Primeiro, diversas questões com problemas os mais diversos. Respostas certas consideradas erradas e vice-versa, duas respostas certas em apenas uma questão e, em consequência disso, diversas divulgações de gabaritos alterados, até o dia de divulgação do resultado final, sem que fosse dado qualquer prazo para que aqueles que identificassem qualquer tipo de irregularidade ou se sentissem prejudicados pudessem entrar com recursos e contestações.
No dia 29 de fevereiro último, horas antes da divulgação do resultado final do concurso, com data do dia 28, a Fundação Parque Tecnológico emitiu comunicado na internet anulando duas questões, por apresentarem “semelhanças” com questões de concursos anteriores, do Instituto de Previdência de Campina Grande – IPSEM e do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Eram cópias exatas.
Ainda no dia da divulgação, mais uma vez, um grande número de candidatos protestaram, principalmente através das redes sócias, alegando falhas gravíssimas. Gabaritos lidos errados (em comparação com os gabaritos dos próprios candidatos) em razão da troca de gabaritos em relação às provas (Ex.: prova A, gabarito B), pontuação alterada, ausência de pessoas com ótimos índices de acertos da lista de aprovados e presença de outros que, eles próprios, consideravam-se sem chances.
É lógico que há casos de “jus esperniandi” (o direito de espernear), mas é difícil acreditar, depois de tantos equívocos, que não houvesse nada mais de errado nessa história.
E aí o fato mais grave de todos foi descoberto, finalmente, após a própria Fundação Parque Tecnológico reconhecer que havia “reutilizado” duas questões de provas de outros concursos: segundo os próprios candidatos apuraram, SETE questões da prova de conhecimentos específicos, com total de 20 questões, foram copiadas, ipsis litteris, de outros concursos.
As sete questões foram encontradas pelos candidatos no site www.provasbrasil.com.br e divulgadas na comunidade “Concurso da UEPB” da rede social Facebook.
É ou não é uma verdadeira DES-organização?
Quando um órgão público contrata uma instituição para organizar um concurso, ela – a instituição contratada – está sendo paga, além de por todo o trabalho de receber as inscrições, atender aos candidatos, enfim, organizar toda a logística do certame, para ELABORAR as provas. ELABORAR não é copiar, plagiar, fazer Ctrl+C / Ctrl-V em provas de concursos passados elaboradas por outras empresas.
A Fundação Parque Tecnológico, é simples, NÃO CUMPRIU o contrato com a UEPB, prejudicando, além de todos os milhares de candidatos ao cargo de assistente administrativo, a própria universidade, que agora se verá, com a mais absoluta certeza, diante de uma verdadeira saraivada de ações judiciais de candidatos efetivamente prejudicados por uma prova que deveria ter 50 questões INÉDITAS, chegou ao dia da divulgação do resultado com apenas 47 questões consideradas pela própria instituição organizadora – obviamente a mudança dessas três questões no gabarito influenciou na alteração da lista de aprovados classificados – e que agora descobre-se, deveriam ser, na verdade, APENAS 42 questões válidas.
É ou não é uma VERGONHA?
Para aqueles que acham que questões anuladas não seriam motivo plausível para anulação de um concurso, já que não se pode ter certeza de que os candidatos teriam tido acesso às originais, cito os casos das Prefeituras de Coaraci – BA (veja aqui), São Martinho da Serra – RS (veja aqui) e da Universidade Federal da Grande Dourados – MS (veja aqui), apenas para citar alguns dos vários que o Google me mostrou.
Neste momento em que a UEPB se encontra envolvida em uma discussão com o Governo do Estado, na qual sua principal solicitação é que o governador admita que cometeu um erro ao desrespeitar a lei da autonomia e, com humildade e espírito republicano, possa voltar atrás para atender à legislação e, principalmente, à vontade de toda a comunidade acadêmica e, por que não dizer, de toda a Paraíba, a universidade tem uma oportunidade mais que perfeita de dar um ótimo exemplo ao Governo do Estado.
Não pode e não deve abster-se de seu papel de contratante, desconsiderando um debate válido, real e efetivo que toma neste momento as redes sociais e, em breve, deverá ocupar espaços importantes na mídia e, principalmente, no judiciário.
Mais ainda, não pode, como instituição de ensino superior, diretamente afetada pela desprezível cultura do “copiar e colar” em suas atividades acadêmicas, admitir que uma instituição que se pretende séria e profissional se utilize desse artifício deplorável em uma relação contratual.
A UEPB precisa chamar o feito à ordem.
Chamar a comissão organizadora do concurso, a instituição contratada, o Ministério Público (que já está trabalhando no caso, através do procurador Bertrand Asfora) e representantes dos candidatos para uma reunião, apresentar sua posição, ouvir todos os lados e decidir.
Se mantiver o estado atual das coisas, deverá se preparar para uma dura e longa batalha judicial com centenas de candidatos que pretendem confrontá-la na Justiça.
Se, identificando que de fato o concurso sofreu em sua organização de vícios insanáveis, decidir atender aos apelos dos concursados prejudicados, oferecerá aos 17.277 candidatos inscritos a oportunidade de poderem concorrer novamente, desta vez com a certificação de que o processo tenha o mínimo de qualidade para, de fato, auferir a competência de seus futuros servidores.
De quebra, dará um grande e valioso exemplo a quem não acredita que possa haver sensibilidade, flexibilidade e humildade na gestão pública.
NOTA DO AUTOR: Todas as observações contidas no texto acima referem-se EXCLUSIVAMENTE ao cargo de ASSISTENTE ADMINISTRATIVO do concurso, não se estendendo a nenhum outro. Nos demais cargos não se identificou até o momento nenhum indício de irregularidade. Para o cargo de comunicólogo, especificamente, posso atestar pessoalmente que não houve qualquer tipo de irregularidade e que o seu resultado, tendo como aprovada e classificada a jornalista Luciellen Souza Lima, foi justíssimo, em favor da candidata, e extremamente positivo para a UEPB, que deverá contar em breve com a presença de uma da mais competentes e talentosas jornalistas paraibanas em seus quadros.
Blog do EmersonSaraiva




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