Este clássico romance de Literatura de Cordel, também conhecido por folheto de Cordel, ou simplesmente Cordel, foi escrito pelo paraibano, Leandro Gomes de Barros, que foi o maior autor, do mundo, deste tipo de literatura. Mas que no final da sua vida, vendeu toda a sua produção e maquinário a João Martins de Athayde, este passou a assumir a autoria de vários Cordéis de Leandro.
As Proezas de João Grilo
(Leandro Gomes de Barros)
João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.
E nasceu de sete meses
chorou no bucho da mãe
quando ela pegou um gato
ele gritou: não me arranhe
não jogue neste animal
que talvez você não ganhe
Na noite que João nasceu
houve um eclipse na lua
e detonou um vulcão
que ainda continua
naquela noite correu
um lobisomem na rua
Porem João Grilo criou-se
pequeno, magro e sambudo
as pernas tortas e finas
boca grande e beiçudo
no sitio onde morava
dava noticia de tudo
João perdeu o pai
com sete anos de idade
morava perto de um rio
ia pescar toda tarde
um dia fez uma cena
que admirou a cidade.
O rio estava de nado
vinha um vaqueiro de fora
perguntou: dará passagem?
João Grilo disse: inda agora
o gadinho de meu pai
passou com o lombo de fora.
O vaqueiro botou o cavalo
com uma braça deu nado
foi sair já muito embaixo
quase que morre afogado
voltou e disse ao menino:
você é um desgraçado!
João Grilo foi ver o gado
para provar aquele ato
veio trazendo na frente
um bom rebanho de pato
os patos passaram n'agua
João provou que era exato
Um dia a mãe de João Grilo
foi buscar água à tardinha
deixou João Grilo em casa
e quando deu fé lá vinha
um padre pedindo água
nessa ocasião não tinha
João disse; só tem garapa
disse o padre: donde é?
João Grilo lhe respondeu:
é do engenho Catolé!
disse o padre: pois eu quero
João levou uma coité
O padre bebeu e disse:
oh! que garapa boa!
João Grilo disse: quer mais?
o padre disse; e a patroa
não brigará com você?
João disse: tem uma canoa
João trouxe outra coité
naquele mesmo momento
disse ao padre: bebe mais
não precisa acanhamento
na garapa tinha um rato
estava podre o fedorento
O padre disse: menino
tenha mais educação
e porque não me disseste?
oh! natureza do cão!
pegou a dita coité
arrebentou-a no chão
João Grilo disse; danou-se!
misericórdia, S. Bento!
com isto mamãe se dana
me pegue mil e quinhentos
essa coité, seu vigário
é de mamãe mijar dentro!
O padre deu uma pôpa
disse para o sacristão
esse menino é o diabo
em forma de cristão!
meteu o dedo na goela
quase vomita o pulmão
João Grilo ficou sorrindo
pela cilada que fez
dizendo: vou confessar-me
no dia sete do mês
êle nunca confessou-se
foi essa a primeira vez
João Grilo tinha um costume
para toda parte que ia
era alegre e satisfeito
no convivio da alegria
João Grilo fazia graça
que todo mundo sorria
Num dia de sexta-feira
às cinco horas da tarde
João Grilo disse: hoje a noite
eu assombro aquele padre
se êle não perdoar-me
na igreja há novidade
Pegou uma lagartixa
amarrou-a pelo gogó
botou-a numa caixinha
no bolso do palitó
foi confessar-se João Grilo
com paciência de Jó
As sete horas da noite
foi ao confissionário
fez logo pelo-sinal
pôsto nos pés do vigário
o padre disse: acuse-se;
João disse o necessário
Eu sou aquele menino
da garapa e da coité;
o padre disse: levante-se,
eu já sei você quem é;
João tirou a lagartixa
soltou-a junto do pé
A lagartixa subiu
por debaixo da batina
entrou na perna da calça
tornou-se feia a buzina
o padre meteu os pés
arrebentou a cortina
Jogou a batina fora
naquela grande fadiga
a lagartixa cascuda
arranhando na barriga;
João Grilo de lá gritava;
seu padre, Deus lhe castiga!
O padre impaciente
naquele turututu
saltava pra todo lado
que parecia um timbu
terminou tirando as calças
ficando o esqueleto nu
João disse: padre é homem?
pensei que fosse mulher
anda vestido de saia
não casa porque não quer
isto é que é ser caviloso
cara de mata bebé
O padre disse: João Grilo
vai-te daqui infeliz!
João Grilo disse: bravo
do vigário da matriz
é assim que ele me paga
o benefício que fiz?
João Grilo foi embora
o padre ficou zangado
João Grilo disse: ora sêbo
eu não aliso croado
vou vingar-me duma raiva
que tive o ano passado
No suburbio da cidade
morava um português
vivia de vender ovos
justamente nesse mês
denunciou de João Grilo
pelas artes que ele fez
João encontrou o português
com a égua carregada
com duas caixas de ovos
João lhe disse: oh! camarada
deixa eu dizer a tua égua
uma pequena charada
O português disse: diga,
João chegou bem no ouvido
com a ponta do cigarro
soltou-a dentro escondido
a égua meteu os pés
foi temeroso estampido
Derrubou o português
foi ovos pra todo lado
arrebentou a cangalha
ficou o chão ensopado
o português levantou-se
tristonho e todo melado
O português perguntou:
o que foi que tu disseste
que causou tanto desgosto
a esse animal agreste?
- Eu disse que a mãe morreu
o português respondeu:
oh égua besta da peste!
João Grilo foi a escola
com sete anos de idade
com dez anos êle saiu
por espontânea vontade
todos perdiam pra êle
outro Grilo como aquele
perdeu-se a propriedade
João Grilo em qualquer escola
chamava o povo atenção
passava quinau nos mestres
nunca faltou com a lição
era um tipo inteligente
no futuro e no presente
João dava interpretação
Um dia pergunta ao mestre:
O que é que Deus não vê
o homem vê qualquer hora?
diz ele: não pode ser
pois Deus vê tudo no mundo
em menos de um segundo
de tudo pode saber
João Grilo disse: qual nada
quêde os elementos seus?
abra os olhos, mestre velho
que vou lhe mostrar os meus
seus estudos se consomem
um homem ver outro homem
só Deus vão ver outro Deus
João Grilo disse: seu mestre,
me diga como se chama
a mãe de todas as mães?
tenha cuidado no drama
o mestre coça a cabeça
disse: antes que me esqueça
vou resolver o programa
- A mãe de todas as mães
é Maria Concebida
João Grilo disse: eu protesto
antes dela nascer
já esta mãe existia
não foi a Virgem Maria
oh que resposta perdida!
João Grilo disse depois
num bonito português:
a mãe de todas as mães
já disse e digo outra vez
como a escritura ensina
é a natureza divina
que tudo criou e fez
- Me responda professor
entre grandes e pequenos
quero que fique notável
por todos nossos terrenos
responda com rapidez
como se chama o mês
que a mulher fala menos?
- Êste mês eu não conheço
quem fez esta tabuada?
João Grilo lhe respondeu:
ora sêbo, camarada
pra mim perdeu o valor
ter o nome de professor
mais não conhece de nada
- êste mês é fevereiro
por todos bem conhecido
só tem vinte e oito dias
o tempo mais resumido
entre grandes e pequenos
é o que a mulher fala menos
mestre, você está perdido
- Seu professor, me responda
se algum tempo estudou
quem serviu a Jesus Cristo
morreu e não se salvou
no dia que êle morreu
seu corpo o urubu comeu
e ninguém o sepultou?
- Não conheço quem é esse
porque nunca vi escrito;
João Grilo lhe respondeu:
foi um jumento está dito
que a Jesus Cristo servia
na noite que êle fugia
de Belém para o Egito
João Grilo olhou de um lado
disse para o diretor:
fique sabendo o senhor
sem dúvida exame não fez
o aluno desta vez
ensinou ao professor
João Grilo foi para casa
encontrou sua mãe chorando
êle então disse: mamãe
não está ouvindo encantando?
não chora, cante mais antes
pois o seu filho garante
pra isso vive estudando
A mãe de João Grilo disse:
choro por necessidade
sou uma pobre viúva
e tu de menor idade
até da escola saíste;
João lhe disse: ainda existe
o mesmo Deus de bondade
— A senhora pensa em carne
de vinte mil réis o quilo
ou talvez no meu destino
que a fôrça hei de segui-lo?
não chore, fique bem certa
a senhora só se aperta
quando matarem João Grilo
João chegou no rio
ás cinco horas da tarde
passou até nove horas
porém tudo foi debalde
na noite triste e sombria
João Grilo sem companhia
voltava sem novidade
Chegando dentro da mata
ouviu lá dentro um gemido
os lobos devoradores
o caminho interrompido
e trepou-se num pinheiro
como era forasteiro
ficou calado escondido
Os lobos foram embora
e João não quis descer
disse: eu dormirei aqui
siceda o que suceder
eu hoje imito araquan
só vou embora amanhã
quando o dia amanhecer
O Grilo ficou trepado
temendo lobos e leões
pensando na fatal sorte
e recordando as lições
que na escola estudou
quando do súbito chegou
uns quatro ou cinco ladrões
Eram uns ladrões de Meca
que roubavam no grito
se ocultavam na mata
naquele bosque esquisito
pois cada um de persi
que vinha juntar-se ali
para ver quem era perito
O capitão dos ladrões
disse: não fala ninguém?
um respondeu: não senhor
disse ele: muito bem
cuidado, não roubem vã
vamos ajuntar-nos amanhã
na capela de Belém
— Lá partiremos o dinheiro
pois aqui tudo é graúdo
temos um roubo a fazer
desde ontem que estudo
mas já estou preparado;
e o Grilo lá trepado
calado e escutando tudo.
Os ladrões foram embora
depois da conversação
João Grilo ficou ciente
dizendo em seu coração:
se Deus ajudar a mim
acabou-se tempo ruim
sou eu quem ganho a questão
João Grilo desceu da árvore
quando o dia amanheceu
mas quando chegou em casa
não contou o que se deu
furtou um roupão de malha
vestiu fez uma mortalha
lá no mato se escondeu
À noite foi pra capela
por detraz da sacristia
vestiu-se com a mortalha
pois a capela jazia
sempre com a porta aberta
João Grilo partiu na certa
colhêr o que pretendia
Deitou-se lá num caixão
que enterrava defunto
João Grilo disse: hoje aqui
vou ganhar um bom presunto;
os ladrões foram chegando
João Grilo observando
sem pensar em outro assunto
Acenderam um farol
penduraram numa cruz
foram contar o dinheiro
no claro de uma luz
João Grilo de lá gritou:
esperem por mim que vou
com as ordens de Jesus!
Os ladrões dali fugiram
quando viram a alma em pé
João Grilo ficou com tudo
disse: já sei como é
nada no mundo me atrasa
agora vou pra casa
tomar um rico café
Chegou e disse: mamãe
morreu nossa precisão
o ladrão que rouba outro
tem cem anos de perdão;
contou o que tinha feito
disse a velha: está direito
vamos fazer refeição
Bartolomeu do Egito
foi um rei de opinião
mandou convidar João Grilo
pra uma adivinhação
João Grilo disse: eu vou,
no outro dia embarcou
para saudar o sultão
João Grilo chegou na corte
cumprimentou o sultão
disse: pronto, senhor rei
(deu-lhe um aperto de mão)
com calma e maneira doce
o sultão admirou-se
da sua disposição
O sultão pergunta ao Grilo:
de onde você saiu?
aonde você nasceu?
João Grilo fitou ele e sorriu
— Sou deste mundo d'agora
nasci na ditosa hora
que minha mãe me pariu
— João Grilo, tu adivinha?e Grilo respondeu, nãoeu digo algumas coisasconforme a ocasiãoquem canta de graça é galocangalha só pra cavaloe sêca só no sertão
— Eu tenho doze perguntaspra você me responderno prazo de quinze diasescute o que vou dizerveja lá como se arrumaè bastante faltar umaestá condenado a morrer
João Grilo disse: estou pronto pode dizer a primeirase acaso sair-me bemvenha a segunda e a terceiravenha a quarta e a quintatalvez o Grilo não mintadiga até a derradeira
Perguntou: qual o animalque mostra mais rapidezque anda de quatro pésde manhã por sua vezao meio-dia com doispassando disto depoisa tarde anda com três?
O Grilo disse: é o homemque se arrasta pelo chão no tempo que engatinhadepois toma posiçãoanda em pé bem seguromas quando fica madurofaz três pés com o bastão
O sultão maravilhou-secom sua resposta lindaJoão disse: pergunte outravou ver se respondo ainda;a segunda o sultão fezJoão Grilo daquela vezcelebrizou sua vinda
— Grilo, você me respondaem termos bem divididosuma cova bem cavadadoze mortos estendidose todos mortos falandocinco vivos passeandotrabalham com três sentidos
— Esta cova é um violãocom prima, baixo e bordãomortas são as doze cordasquando canta um cidadãocanta, toca e faz versocinco vivos num progressoos cinco dedos da mão
Houve uma salva de palmacom vivas que retumbouo sultão ficou suspensoseu viva também bradoudepois pediu silencio com outro desejo imensoa terceira perguntou
João Grilo, qual é a coisaque eu mandei carregarprimeiro dia e segundono terceiro fui olharquase dá-me a tiriricase tirar mais grande ficanão mingua, faz aumentar?
— Senhor rei, sua perguntaparece me fazer guerraum Grilo não tem sabercriado dentro da serramas digo pra quem conheceo que tirando mais cresceé um buraco na terra
— João Grilo, vou terminaras perguntas do tratadoe Grilo disse: perguntequero ficar descansado;disse o rei: é muito exatoo que é que vem do altocai em pé, corre deitado?
— Aquele que cai em pée sai correndo no chãoserá uma grande chuvanos barros de um sertão;o rei disse: muito bemno mundo todo não tem outro Grilo como João
— João Grilo, você bebe?João disse: bebo 1 pouquinhoe disse: eu não sou filhode Baco que fez o vinhoo meu pai morreu bebendoeu o que estou fazendo?de boca aberta em seu ninho
O rei disse: João Grilobeber è coisa ruime Grilo respondeu: qualo meu pai dizia assim:na casa de seu Henriquezelam bem um alambiquemelhor do que um jardim
O rei disse: João Grilo tua fama é um estrondoJoão Grilo disse: eu sabendoo que perguntar respondodisse o rei enfurecido:o que tem o pé compridoe faz o rastro redondo?
Senhor rei, tenho lembrançade tempo da minha avóque ela tinha um compassona caixa do bororócomo êsse eu também andofazendo o rastro redondoandando com uma perna só
João qual é o bicho,que passa pela campinaa qualquer hora da noiteandando de lamparina?é um pequeno animaltem luz artificial;veja o que determina
— Esse bicho eu já vipois eu tinha por costumede brincar sempre com êleminha mãe tinha ciúmeeu andava pelo campouns chamam pirilampoe outros de vagalume
O rei já tinha esgotado a sua imaginação não achou uma perguntaque interrompesse a Joãodisse: me responda agoraqual é o olho que chora sem haver consolação?
O Grilo então respondeu:lá muito perto da gentetem num oiteiro importanteum moço muito doentesuas lágrimas têm paladarquem não deixa de choraré ôlho d'água vertente
O rei inventou um truquedo jeito que lhe convinha— Vou arrumar uma ciladaver se João adivinhamandou vir um alçapãofez outra adivinhaçãoescondeu uma bacurinha
— João, o que é que temdentro deste alçapão?se não disser o que éé morto, não tem perdãoJoão Grilo lhe respondeu:quem mata um como eunão tem dó no coração
João lhe disse: esse objetonem é manso nem é brabonem é grande nem é pequeno nem é santo nem é diabobem que mamãe me diziaque eu ainda caíaonde a porca torce o rabo
Trouxeram uma bandejaornada de muitas floresdentro dela uma latinhacheia de muitos fulgoreso rei lhe disse: João Griloé este o último estriloque rebenta tuas dores
João Grilo desta vezpassou na última esticaadivinhar uma coisanojenta que se praticafugir da sorte mesquinhapois dentro da lata tinhaum pouquinho de xinica
O rei disse: João Griloveja se escapa da morteo que tem nesta latinha?responda se tiver sortetoda aquela populaçaqueria ver a desgraçado Grilo franzino e forte
— Minha mãe profetizouque o futuro è minha perda— Dessas adivinhaçõesbrevemente você herdafaz de conta que já vi como esta hoje aquiparece que dá em merda
O rei achou muita graçanada teve o que fazerJoão Grilo ficou na cortecom regosijo e prazergozando um bom paladarfoi comer sem trabalhardesta data até morrer
E todas as questões do reino era João que deslindavaqualquer pergunta difícilele sempre decifravajulgamentos delicados problemas muito enrascadose João Grilo desmanchava
Certa vez chegou na corteem mendigo esfarrapadocom uma mochila nas costasdois guardas de cada ladoseu rosto cheio de mágoaos olhos vertendo águafazia pena o coitado
Junto dele estava um duqueque veio denunciardizendo que o mendigona prisão ia morarpor não pagar a despesaque fizera por afoitezasem ter como lhe pagar
João Grilo disse ao mendigo:e como é, pobretãoque se faz uma despesasem ter no bolso um tostãome conte todo passadodepois de eu ter-lhe escutadolhe darei razão ou não
Disse o mendigo: sou pobree fui pedir uma esmolana casa do senhor duquelevei a minha sacolaquando cheguei na cozinhavi cozinhando galinhanuma grande caçarola
Como a comida cheiravaeu tive apetite nelatirei um taco de pãoe marchei pro lado delae sem pensar na desgraçabotei o pão na fumaçaque saia da panela
O cozinheiro zangou-sechamou logo o seu senhordizendo que eu roubarada comida o seu saborsó por eu ter colocadoum taco de pão mirradoaproveitando o vapor
Por isso fui obrigadoa pagar essa quantiacomo não tive dinheiroo duque por tiraniamandou trazer-me escoltadopara depois de ser julgado ser posto na enxovia
João Grilo disse: está bem não precisa mais falar:então perguntou ao duque:quanto o homem vai pagar?- Cinco coroas de prataou paga ou vai pra chibatanão lhe deve perdoar
João Grilo tirou do bolso a importância cobradana mochila do mendigo deixou-a depositadae disse para o mendigo:balance a mochila, amigopro duque ouvir a zuada
O mendigo sem demorafez como Grilo mandoupegou sua mochilinhasem compreender o truquebem no ouvido do duqueo dinheiro tilintou
Disse o duque enfurecido:mas não recebi o meu,diz João Grilo: sim senhor,isto foi o que valeudeixe de ser batoteiroo tinido do dinheiroo senhor já recebeu
- Você diz que o mendigopor ter provado o vaporfoi mesmo que ter comidoseu manjar e seu saborpois também é verdadeiroque o tinir do dinheirorepresenta o seu valor
Virou-se para o mendigoe disse: estás perdoadoleva o dinheiro que dei-tevai pra casa descansadoo duque olhou para o Grilodepois de dar um estrilosaiu por ali danado
A fama então de João Grilofoi de nação em nação por sua sabedoriae por seu bom coraçãosem ser por êle esperadoum dia foi convidadopara visitar um sultão
O rei daquele paísquis o reino embandeiradopra receber a visitado ilustre convidadoo castelo estava em florescheio de tantos fulgoresricamente engalanado
As damas da alta côrtetrajavam decentementetôda côrte imperialesperava impacienteou por isso ou por aquilopara conhecer João Grilofigura tão eminente
Afinal chegou João Grilono reinado do sultãoquando êle entrou na côrteque grande decepção!de palitó remendadosapato velho furadonas costas um matulão
O rei disse: não é elepois assim já é demais;João Grilo pediu licençamostrou-lhe as credenciaisembora o rei não gostassemandou que ele ocupasseos aposentos reais
Só se ouvia cochichos que vinham de todo ladoas damas então diziam:é esse o homem falado?duma pobreza tamanhae ele nem se acanhade ser nosso convidado?
Até os membros da côrtediziam num tom chocantepensava que o João Grilofôsse dum tipo elegantemas nos manda 1 remendadosem roupa, esfarrapadoum maltrapilho ambulante
E João Grilo ouvia tudomas sem dar demonstraçãoem toda a côrte realninguem lhe dava atençãopor mostrar-se esmolambadotinha sido desprezadonaquela rica nação
Afinal veio um criadoe disse sem o fitar:já preparei o banheiropara o senhor se banharvista uma roupa minhae depois vá pra cozinhana hora de almoçar
João Grilo disse; está bom;mas disse com seu botão:roupas finas trouxe eudentro de meu matulãome apresentei rasgadopara ver neste reinadoqual era a minha impressão
João Grilo tomou um banho vestiu uma roupa de galaentão muito bem vestidoapresentou-se na salaao ver seu traje tão belo houve gente no casteloque quase perdia a fala
E então toda repulsatransformou-se de repenteo rei chamou-o pra mesacomo homem competenteconsigo, dizia João:na hora da refeiçãovez ensinar esta gente
O almoço foi servidoporém João não quis comerdespejou vinho na roupasó para vê-lo escorrerante a corte estarrecidaencheu os bolsos de comida para toda corte ver
O rei bastante zangadoperguntou pra João:por que motivo o senhornão come da refeição?respondeu João com maldade:tenha calma, majestadedigo já toda razão
Esta mesa tão repletade tanta comida boanão foi posta pra mim um ente vulgar a toadesde sobre-mesa a sopaforam postas à minha roupae não à minha pessoa
Os comensais se olharam o rei pergunta espantado:por que o senhor diz istoestando tão bem tratado?disse João: isso se explicapor está de roupa ricanão sou mais esmolambado
Eu estando esfarrapadoia comer na cozinhamas como troquei de roupacomo junto da rainhavejo nisto um grande ultrajehomenagem ao meu trajee não a pessoa minha
Toda corte imperialpediu desculpa a Joãoe muito tempo falou-senaquela dura liçãoe todo mundo diziaque sua sabedoriaera igual a Salomão.