quarta-feira, 13 de março de 2013

A CASA

Categoria: Crônica


A CASA
( Laura Pereira)

Algum de vocês já parou para pensar como é interessante a história de uma casa? Já imaginou como ela faz parte da nossa vida? Como nos acolhe, nos protege, nos espera quando estamos fora? Quem, na vida, nunca parou para pensar naquele cantinho preferido que temos dentro dela, na segurança do seu aconchego, no cheiro que a sua casa tem? Eu fico tão melancólico quando vejo uma casa triste e desocupada, sem roupa no varal, sem gritos de crianças, sem luz... Quando vejo uma casa sozinha e escura, eu imagino que ali dentro tem calor e luz. Quando vejo uma casa abandonada, imagino que ela logo, logo, será ocupada, limpa, pintada… cheia de energia, e que lindas flores irão perfumar aquele belo lar.

Uma história bastante curiosa tenho para contar sobre a minha querida casa, meu lar, minha vida:

A casa era grande e sombria. Eu tinha apenas 9 anos quando passava por ela e tinha medo de encara-la. Brincávamos nas calçadas dos amigos, quando a brincadeira contava com muitas crianças, a gente ia pra calçada da casa grande. Confesso que tinha medo de brincar ali, pois à noite dava pra ver os morcegos que saíam e entravam da casa. Procurava não me assombrar e logo, distraído com as brincadeiras, me esquecia dela. Certa noite faltou luz no nosso bairro, isso em cidade pequena é uma festa para a criançada. Cada uma com sua lanterninha danava a correr e gritar. Com a falta de luz, logo vinham as histórias mal-assombradas, de lobisomens, almas e casas abandonadas.

Numa brincadeira dessas me perguntaram se eu teria coragem de entrar naquela casa sozinho. Claro que tenho, respondi sem pestanejar. Então vai, dizia um amigo, duvido que vá, dizia outro. Felizmente a luz chegou e eles se esqueceram daquelas histórias infernais que acabavam povoando meus sonhos durante toda a noite.

No outro dia de manhã, não sei explicar bem porque, passei bem próximo da casa. Fui até o terraço. Nunca a tinha observado tão de perto. Era uma casa grande, castigada pelo tempo. Suas paredes estavam nuas e pretas e os vidros coloridos das antigas janelas, quebrados. Deveria ser bem bonita quando era nova, suas portas eram desenhadas com detalhes caprichados, cheias de portinholas. Tinha um terraço ladeado com ferros descascados e enferrujados, ao lado, protegido por um velho portão forjado, um jardim de terra seca e muito mato e espinhos parecia proteger a casa de algum curioso mais ousado que quisesse espiar o interior do recinto.

Nunca mais inventamos de entrar na casa, nem mesmo quando faltava luz. Os meninos já não se interessavam por aquela velha construção. Mas eu, não sei porque, passei a observá-la. Todos os dias, a caminho da escola, eu olhava pelos vidros quebrados, mal dava pra ver uma sala grande, com alguns móveis antigos coberto com lençóis, alguns quadros… não dava pra ver direito porque olhava rápido, pois tinha medo que alguém me pegasse espiando e brigasse comigo.

O chão de mosaico, do terraço, estava sempre sujo, dava pra ver o excremento que era depositado ali na calada da noite, já que o espaço era reservado e funcionava como “banheiro”. A matéria fecal emprestava ao local um cheiro forte e desagradável, o que certamente afastaria qualquer visitante indesejável, como eu, talvez.

O tempo passou rápido, já adolescente, não me interessei mais pela casa. Quando terminei os anos de estudos fui morar na capital, logo depois minha família inteira se mudou para lá e a velha casa caiu no esquecimento.

Muitos anos se passaram até que eu tive a oportunidade de voltar para a minha terra natal. Terminado meu tempo de estudos e trabalhando aqui e ali, acabei fazendo um concurso e, por coincidência, (ou não?) tinha uma vaga de emprego no meu querido sertão. Eu, claro, optei por ficar na minha cidadezinha, seria um enorme prazer poder passear por entre as árvores das praças, escutar os pássaros de manhãzinha, comprar pão fresco na padaria e se sentar à sombra da igreja à tardinha, esperando a noite chegar.

Embalado nesse sonho de menino, fui aprovado no concurso e fui tomar posse do meu emprego. Levei a família, agora era casado, tinha filhos... Contei para eles toda a minha infância, as brincadeiras nas calçadas, os banhos de rios, o São João e a casa mal-assombrada, claro, não poderia me esquecer dela em minhas aventuras de menino.

Ficamos hospedados num hotel, aproveitei o tempo que ainda tinha livre para dar uma volta por minha querida cidade. Ela tinha crescido um pouco, novas lojas, algumas fábricas pequenas, alguns prédios de aluguel... a pracinha também estava mais bonita, mais colorida e acolhedora como sempre.

Só quem passa por uma experiência dessas, de sair e voltar ao seu lugar de origem, experimenta imensa alegria ao reencontrar velhos amigos, abraçar parentes, rever antigas edificações... Como num impulso, quase correndo, fui olhar a casa onde morávamos. Eu havia pensado em, como andorinha cansada de viajar, fazer meu ninho naquela casa que cresci e lá passar o resto de meus dias.

Qual não foi a minha surpresa quando vi uma loja e um bar onde deveria repousar a minha casa... que pena! Construíram uma pequena loja e um bar barulhento era o seu vizinho... Voltei tristonho, pois no meu íntimo esperava comprar aquele terreno e remodelar a minha casa antiga...

Voltava cabisbaixo quando uma idéia me tomou de surpresa, será? Não, não... não seria possível, pois a cidade crescera, mas... saí caminhando rápido, com medo da resposta quando a avistei de longe. Inacreditável! A velha casa mal assombrada permanecia do mesmo jeito... um pouco mais de pretume, muito mais vidros quebrados, sujeira pra todo lado. Sim, fui lá de novo como fazia quando era criança, iria espiar pelas frestas das velhas portas. Mas aquele dia me reservava novas surpresas, a casa estava a venda! Como é possível? Parecia que esperava por mim! Não pensei duas vezes, comprarei a casa.

O representante do dono da casa foi me apresentar o imóvel por dentro, eu não me contive de tanta curiosidade. Abrimos a porta e vi como era por dentro. Incrível! Era do jeito que eu imaginava quando criança. Alguns móveis antigos, empoeirados e já se desmanchando, terra pra todo canto, dois ou três quadros (forrados com lençóis) na parede... A sala era grande e arejada, tinha um terraço contíguo que dava para o jardim, cinco quartos de tamanho médio, um pequeno corredor (como é comum nas casas antigas), que dava para o quintal. A sala de jantar tinha uma grande janela, como a casa era alta, dava para ver a praça inteira. À medida que ia conhecendo os aposentos da casa, fui imaginando como iria ficar tudo ali depois da reforma: a cor das paredes, o quarto das crianças, a sala de TV, a cozinha…Certamente todos iriam gostar da minha escolha, por isso não me importei muito em levar a minha esposa, não queria abrir mão daquela casa que habitou por tanto tempo meus tempos de menino.

“O senhor teve muita sorte, somente agora colocaram a casa grande à venda”, me disse o homem, me despertando bruscamente de velhas lembranças. Um sujeito de meia idade, sisudo e de poucas palavras, mas de feições apaziguadoras, este era o homem que me vendera a casa.

Por que só agora resolveram vender esta casa? Perguntei curioso.

“Porque a casa pertencia à herdeiros da família dos antigos proprietários. Havia um impasse nessa família quanto à venda desse imóvel e isso se arrastou por anos... O herdeiro mais velho morreu e seus filhos aceitaram vender a casa. Ela, apesar de velha e desarranjada guarda muitas lembranças... Tome conta dela, meu filho, e será muito gratificado por Deus”. Dizendo isso, o senhor tratou de mais alguns assuntos e se foi, quase que tristemente.

Uma vez sozinho naquela agradável morada, apesar de quase ao chão, fiquei a observar os poucos móveis que restaram e que certamente ninguém os queria para si. Alguns quadros velhos me chamaram a atenção, eram paisagens apagadas pelo tempo e cheias de pó. Um quadro grande me despertou intensa curiosidade por ainda estar muito bem coberto por um velho lençol amarelado. Com cuidado, tirei o pano e fiquei surpreso com a figura que me apresentava. Era a pintura de uma mulher. Quem seria ela? Faria parte daquela família? Era uma mulher de aproximadamente 20 anos, assim deduzi. Examinei curiosamente aquela jovem mulher, sua face encantadora tinha uma expressão suave e agradável. Seu rosto pequeno e delicado era emoldurado por cabelos louros que caiam pelas espátulas como uma cascata de ouro. Seu vestido violeta realçava a transparência de sua pele, no entanto, notei no seu semblante uma tristeza indisfarçável. Sua boca pequena sorria tristemente... Com algum esforço consegui tirar o quadro da parede, mais tarde embalei-o com cuidado. Alguma coisa me dizia que aquela mulher já havia morado naquela casa e fiquei de perguntar se o senhor que vendera a casa conhecia aquele anjo triste. Eu prometi a mim mesmo que, depois de aprontar a casa, como havia imaginado, conservaria aquele quadro no seu lugar de origem.

O tempo passou rapidamente, o trabalho com a casa me absorveu por completo. Aos poucos a antiga moradia foi tomando o contorno escolhido por mim, algumas portas foram trocadas, outras restauradas, pois não queria mudar totalmente suas características próprias. Não vale a pena contar todos os detalhes do trabalho, a casa ficou maravilhosamente iluminada, colorida e mais feliz. As plantas que minha esposa escolheu para o novo lar deu à nossa vivenda mais vida e frescura, flores coloridas plantadas no jardim que eu havia conservado reanimaram aquele espaço seco e descuidado, a casa parecia respirar, parecia estar viva!
Finalmente, depois de algum tempo e muito trabalho, fizemos a feliz mudança. Só quem passa por uma experiência dessas é capaz de sentir o que estou falando. Aquela casa velha se transformara uma maravilhosa morada, o que arrancou suspiros de admiração por quem passava e observava. Quando tudo já estava ajeitado, os móveis harmoniosamente colocados, fui logo pegar o quadro da moça para devolvê-lo ao seu lugar de origem, conforme combinei comigo mesmo. Eu havia reservado aquele cantinho para ela, escolhi uma cor luminosa e suave para a pintura da parede, pois sabia que, de um jeito ou de outro, ela não passaria despercebida. Com cuidado coloquei-o no seu lugar, me afastei um pouco para ver se estava tudo no prumo quando, com olhar estupefato, constatei que a jovem sorria suavemente alegre e seus olhos acinzentados brilhavam de maneira diferente. Não podia ser, ela parecia estar alegre, satisfeita... Não era aquele semblante belo, porém triste, de outrora… Poderia jurar que ela estivesse agradecida por ali permanecer. Fiquei por um longo tempo a admirar aquela pintura, como poderia ter mudado? O chamado de minha esposa me tirou abruptamente daquele torpor. Ah! Pensei comigo, eu acho que não prestei bem atenção nas expressões do seu rosto... Não poderia ter mudado assim...

Não encontrei mais parente algum daqueles antigos proprietários para falar sobre o quadro e, pensando bem, não o perguntaria mesmo se os encontrassem, pois preferia deixar a história a esse pé e encontrar respostas para a imaginação dentro de meus próprios pensamentos.

É, a minha casa teve mesmo uma história, lamento não ter conhecido a família que ocupou por tantos anos aquela residência… confesso que a imaginação me perturbou por algum tempo: o que teria acontecido naqueles aposentos, como teria se portado a enigmática jovem do quadro? O que a teria deixado triste? Daria todo o meu reino para obter algumas respostas que fossem… Mas, melhor deixar essas indagações de lado, pois o tempo passou e na casa residia agora outra família, a minha família!

Laura Pereira

1 comentários:

Bonita historia! parabéns,não consegui parar de ler antes do ponto final.ha essa casa essa casa, não consigo identificar em que rua fica, mais com certeza já a vi.

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