Os resultados de outubro têm dado fôlego a análises que veem uma onda de renovação nos municípios: as eleições teriam sido marcadas pelo desejo de mudança. O principal argumento dessas análises é a grande proporção de candidatos à reeleição derrotados: 2.736 prefeitos concorreram à reeleição, e 1.505 foram bem-sucedidos. Uma taxa de sucesso de 55%.Pesquisas do Centro de Estudos da Metrópole (CEM/Cebrap), no entanto, indicam que esses números não estão muito distantes do que se observou nos pleitos passados. Historicamente a taxa de prefeitos elegíveis que tentam o segundo mandato tem ficado por volta de 70%. Em 2012 cerca de 65% dos prefeitos elegíveis tentaram a reeleição.Mais importante, a taxa de sucesso dos prefeitos que concorrem à reeleição foi, nos três últimos pleitos, de cerca de 60% -58,2% em 2000 e 2004, e 65,9% em 2008. Embora a série histórica seja pequena, parece que na verdade 2008 foi um ano mais favorável aos prefeitos candidatos e que agora voltamos ao patamar de 2000 e 2004.Os números mostram que, se a mais recente eleição foi marcada pela renovação e desejo de mudança, esse desejo não é novidade: esteve presente em outras ocasiões.Mas é preciso ir mais fundo e distinguir a mera alternância de poder da renovação na política. Uma coisa é trocar um político tradicional por outro. Outra é eleger candidatos para quem a política é uma novidade. A questão é: estaria o eleitor votando mais em partidos não tradicionais? Em candidatos que nunca ocuparam cargos eletivos? Em candidatos jovens? Em mulheres? A resposta é não.Apenas cinco partidos receberam cerca de 60% dos votos: PMDB, PT, PSB, PSDB e PSD. Todos são partidos tradicionais. A maior parte dos eleitores não buscou punir os partidos tradicionais ao votar.Dos eleitos, 38% eram prefeitos ou ex-prefeitos; dos não eleitos, 41% já tinham ocupado cargo eletivo: tem-se uma diferença de 3%, muito pequena. Isso mostra que o eleitor não usou o voto para punir profissionais da política.A idade média dos candidatos a prefeito foi de 48 anos, a mesma dos eleitos. A dos não eleitos foi de 49 anos. Não há diferença do ponto de vista estatístico. O eleitor não privilegiou os jovens.Uma demonstração da vontade de mudança seria a eleição de mais mulheres. Em 2012, 2.038 mulheres se candidataram ao Executivo, e 659 (32%) foram eleitas. Esse percentual chegou a 36% entre os homens: uma diferença estatisticamente significativa. Os eleitores continuam privilegiando candidatos do sexo masculino, mais um indício contra a tese da renovação.Mas se não é renovação o que o eleitor busca, como explicar que apenas cerca de metade dos prefeitos eleitos em 2008 lograram obter um segundo mandato nas urnas?A explicação parece estar na economia. O argumento do chamado "voto econômico" é claro. Nos ciclos de crescimento o governo desfruta de altas taxas de aprovação, e os eleitores tendem a reeleger o governante. Já crises favorecem a oposição. Será que se pode estender esse argumento aos governos locais?Os governos locais no Brasil, sobretudo nas cidades pequenas, dependem dos repasses do governo federal.O Fundo de Participação dos Municípios, principal fonte de receitas para grande parte dos municípios, depende da arrecadação do IR e do IPI, que são muito sensíveis ao nível de atividade econômica. Nesse sentido, a situação fiscal dos municípios foi muito afetada pelo baixo dinamismo dos últimos anos.Aqui parece estar a explicação para o sucesso das oposições em 2000, 2004 e 2012. Em 2008 os prefeitos tiveram um cenário mais favorável, o crescimento do PIB ficou, naquele ano e no que o precedeu, acima de 5%. Esse ciclo de crescimento econômico beneficiou os prefeitos que tentavam a reeleição.Ademais, o fato de que a taxa de reeleição de prefeitos, nas últimas quatro eleições municipais, é mais baixa nas cidades pequenas e mais pobres parece corroborar o argumento do voto econômico.
Folha Uol
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