1 BERTO DE ALMEIDA
O acaso, disseram um dia, é o nome de Deus quando não quer assinar. E foi esse acaso, poucos minutos passados, sem saber que Maria Jose Limeira tinha trocado de roupa e se mudado para outra cidade, que lembrei em um papo rápido com um antigo colaborador de Jório Machado, ainda na velha Iterplan - era isso mesmo? -, o tempo em que trabalhamos juntos.
Bons tempos aqueles! O velho Oduvaldo Batista, comunista convicto, mesmo assim não podendo evitar de dizer que “Deus o tenha!”, era o editor de o Momento, jornal do amigo, amicíssimo da Maria Zé Limeira, Jório Machado. O Momento era um semanário onde este escriba mantinha uma coluna intitulada de Coisas do Momento. Ah, Hildeberto Barbosa Filho, hoje o nosso critico literário-mor, assinava, também, coluna intitulada de Letra Lúdica.
Maria Zé Limeira era a nossa Clarice Lispector. Virgínius da Gama e Melo, o inesquecível menestrel, assim como Biu Ramos, Jomar Muniz de Brito, Jurandy Moura - um dia falarei sobre o nosso último encontro na Flor da Parahyba -, até mesmo pela idade, mesma época, eram mais próximos dela. Evandro Nóbrega, o Druzz, também fazia parte da turma. Se a memória não me falha, Vrigínius da Gama e Melo, aquele da “rosa vermelha na lapela” que posava num quadro meia-luz no saudoso Bar da API, prefaciou um dos livros seus. Foram muitos. Mas, sem mentir e pra que mentir, lembro-me da Margem e As portas da Cidade Ameaçada.
Maria era uma puta – no mais puro e verdadeiro dos sentidos – escritora. Exigente. Os seus textos publicados em O Momento, fazia questão de que a revisão fosse sua. A mesma coisa, lembro-me bem, este escriba exigia: quero ver os meus possíveis erros e, se não souber onde estou errado, ser responsável pelos meus erros publicados.
Um dia, faltando pouco tempo para este escriba, aceitando o convite do bom Guy Giuseppe e outros amigos, Aldo Lopes e Carlos Tavares, entre os muitos que me lembro agora, transferir-me para a revista Em Dia, o velho e bom Oduvaldo Batista pediu para o escriba escrever uma matéria sobre os turistas que invadiam as nossas praias. Era mês de dezembro. Não queria, pois, o Jório Machado sabia muito bem, gostava mais de ficar na redação cometendo mal-traçadas sobre as coisas desta terra e de terras outras. Mesmo assim, por insistência do bom Oduvaldo, escrevi a matéria.
No final da referida, como não sou de deixar uma só frase sem o devido complemento, dizendo que “mulher abundava” em nossas praias naquele mês, concluía dizendo “... E como abunda!”. O mundo, apesar de não ser ainda o dela, mas da Maysa Matarazzo, caiu! A boa Maria Zé Limeira, séria como um soldado de polícia desfilando num Sete de Setembro, não gostou. Precisava disso, disse para um Oduvaldo que, coisa rara, deixava o sorriso cortar-lhe o rosto. Um jovem que escreve tão bem, um bom texto, usar desse absurdo! O absurdo, vocês leram, era o “... como abunda!”. O verbo abundar usado no momento certo.
Saudades! Que a terra lhe seja leve como os textos que escreveu vestindo essa roupa que ainda estou usando, e morando numa cidade onde até agora eu moro!
Em tempo: não encontrei ilustração melhor para ilustrar (sic) a despedida de Maria Zé Limeira



1 comentários:
Maria José Limeira, elevou-me na escrita. Era um membro da minha lista e eu da dela, a oficina literária. nunca esquecerei a mulher doce e guerreira que ele era. Um abraço à Dora e filhas e a si...
Postar um comentário