sábado, 14 de dezembro de 2013

Matuto comedor


O matuto que se preze tem que ser comedor. E o matuto comedor tem que comer, no mínimo, uma panela cheia de feijão com mocotó de boi, maxixe, quiabo e pé de porco salgado.
Antonio da Várzea comia tudo isso aí de cima e ainda fazia a digestão envergando, no bucho, uma dúzia de bananas anãs, uma lata de doce de goiaba Palmeiron e, para arrotar forte e grosso, uma rapadura brejeira com cinco litros d'água do pote de Bidula de Seu Duquinha.
Quando eu era menino, em Princesa, uma das raras qualidades que se encontrava no homem daquele meu sertão era o de bom comedor. Por isso Antonio da Várzea tinha fama e prestígio. Era um comedor de alta categoria. Comia o que via e o que não via.
Certa manhã, e isso eu vi, Antonio se postou de emboscada na saída da cozinha de Seu Mano, pegando todos os pratos que apareciam. Comeu oito pratos de farofa com feijão, com carne de boi, com verdura, com macarrão do grosso e com água do Jatobá. Não satisfeito, repetiu a dose. E deu pra morrer. Arfava, ficava sem voz, os olhos revirados pedindo o cemitério, um traste. Até quando alguém , ou melhor dizendo, Maria Mumbaça, se lembrou de fazer um chá. Prepararam um chá de boldo combinado com capim santo e erva cidreira e levaram para o nosso Antonio, que àquela altura estava quase desmaiando. Subiram a xícara até ele, o quase moribundo sentiu o cheiro do chá, abriu a boca com muita dificuldade e, antes de beber o que lhe era oferecido, chamou sua assistente de enfermagem para mais perto e perguntou:
- Cadê a bolacha?
Blog do Tião

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