Por Sousa Neto - Revirando papeis velhos, encontrei a data do seu nascimento. O 19 de setembro estava lá, perdido dentro de uma caixa que não costumo mexer, esquecido entre outros escritos mais e menos importes. Papai aniversariou, e eu não me lembrei, nunca lembrei. Meu esquecimento não o incomoda, e eu também não me incomodo com o seu.
Não precisamos de data natalícia para lembranças recíprocas. Todo dia e a cada dia somos mais importantes um para o outro. A distância que nos separa não nos diminui a proximidade.
Não tivemos muita convivência, mas algumas memórias da infância são inapagáveis: lembro dele me protegendo sob uma arvore enquanto uma chuva molhava todo o roçado; recordo os tijolos que eu servia com esforço para suas mãos ligeiras erguerem paredes e sustentarem uma família.
Inegavelmente, somos parecidos no que somos e no que fazemos: ele ergue casas para abrigar pessoas; e eu construo ideias na esperança de que muitos se abriguem sob elas. Suas construções e as minhas nunca foram muito rentáveis, e nem por isso somos menos felizes, e mesmo que nos rendessem muito, não seríamos menos infelizes. O mesmo vício por trabalho, a mesma introspectividade, a mesma verdade, a mesma magreza: somos realmente muito parecidos. Talvez a única coisa que nos diferencie um pouco seja a cor da pele. Ele carrega uma aparência enegrecida pela pré-disposição genética e a farta exposição ao sol, mas é provável que sua alma seja bem mais alva do que a que me move.
Papai não sabe ler o que eu escrevo, mas me conhece infinitamente melhor do que o meu mais fiel leitor. Não leu os livros que li nem livro nenhum, no entanto, sua leitura da vida e do mundo é irretocável. Me supera também em sua fé: papai vai ao templo e reza: acredita que a vida não morre com a morte, e eu me orgulho e me felicito pelo seu credo. Alegro-me por ter que carregar sozinho a cruz da angústia pela certeza no fim de todas as coisas.




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