Relembrar o passado é como encontrar um livro antigo, que estava perdido na estante, entre tantos outros, esquecido e envelhecido. Aí a gente se surpreende por encontrá-lo e vai passando, devagar, página por página, tentando lembrar daqueles episódios que já vimos, já vivemos, mas que valem a pena ver de novo, ler, se emocionar e se tranportar para um tempo que só existe no limite de nossas memórias.
O livro tem algumas páginas que o tempo implacável não fez perdurar, e apagou sem pena. Outras páginas foram ruídas pelas traças e outras ainda foram destacadas (arrancadas) por alguém que nos roubou os sonhos… Folheando o livro das memórias, (e vou escrever antes que eu me esqueça), lembrei-me das festas juninas do Colégio Diocesano “Dom João da Mata”, que naquele tempo chamávamos de “a festa do Ginásio”… para mim era a festa do ano.
Quando chegava o mês de maio, os jovens de Itaporanga logo se agitavam para dançar a quadrilha do Ginásio. Era gente de todas as escolas, e eu, claro, estava na fila das primeiras (o chato é que todas as vezes, eu era quem tinha de chamar o meu “par”) o garoto, e isso me dava uma vergonha tremenda. Mas, depois de “aceita”, o segundo passo seria os ensaios. Lá na cantina, à noite, ao som das eternas músicas juninas, “Dodoido” marcava a quadrilha “alavantú, anarrié, balancê…” era um mês todinho de ensaios, que chegavam a ser mais divertidos do que no dia da apresentação.
Então, finalmente chega o dia da festa, do forró do Ginásio. Logo na entrada estavam dois professores bem conhecidos, só podia entrar se o casal estivesse junto e isso às vezes demorava a acontecer. Uma vez lá dentro, dava gosto ver as banderolas coloridas, as mesas bem arrumadas, as comidas gostosas espalhadas na mesa onde Bidia e Nilda cuidavam com zelo, a banda simples que animava a festa… nunca vi festa tão animada!
“Eita banda boa, banda que sabia tocar, “quando essa banda começa…” Nessa época, início dos anos 80, o Trio Nordestino e os Três do Nordeste estavam no auge e as músicas deles faziam a alegria do pessoal, era forró a noite inteira.
Eu contava os dias para chegar logo aquela noite mágica, pensava no modelo do vestido de chita, na costureira, na sandália… ficava ansiosa para dançar a quadrilha, para me embrenhar naquele emaranhado de pessoas que faziam a poeira subir. A banda tocava “Você faz de mim neném, molequinho tão dengoso e eu fico furioso… um neném, bonitinho…”
E assim era a noite toda, até o sol amanhecer “clarear e pegar o sol com a mão, o sol com a mão até o dia clarear…”
Em Itaporanga era assim, uma banda simples era capaz de animar as festas de junho como nenhuma outra poderia fazer, o “palhoção” (grande passarela de madeira coberta com palhas de côco) era o palco de danças regionais e quadrilhas, não tinha o requinte de hoje, em compensação, as bandas atuais jamais animarão as pessoas como as simples de antigamente…
O livro das memórias passadas tem páginas cobertas de pó, algumas parecem pergaminhos, de tão velhas que estão, mas lá estão registradas etapas de nossas vidas e podemos ler de várias maneiras, do meio para fim, do começo, abrir por acaso… não é uma maravilha ter memórias para lembrar? “Parece com não morrer”, com reviver… e ainda temos a chance de reinventar o final desse livro maravilhoso, pois mesmo o que esquecemos fica gravado eternamente no registro akáshico e lá, certamente, estão todas as noites de São João do Colégio Diocesano, o nosso inesquecível Ginásio de Padre Zé.




0 comentários:
Postar um comentário